A partir de fevereiro recomeço o atendimento .

A partir de fevereiro 2019 recomeço o atendimento na clínica.

O rei, o bobo da corte e a lava jato

A autorização de quebra do sigilo dos delatores da Odebrecht pelo ministro Fachin veio trazer maior entropia no já confuso e não poucas vezes sórdido ambiente da Lava Jato, sem que nenhuma responsabilidade lhe seja debitada pelo atraso.
Ora requentando afirmações e aleivosias, ora trazendo novidades importantes, instalou o pânico no meio político brasileiro.
Também propiciou à mídia das ‘sei famigli’ ( Marinho, Frias, Mesquita, Civita, Saad e Sirotsky), que domina os meios de comunicação tradicionais, trazer de novo as estimulações golpistas, agora com uma pretensa ‘presença’ dos delatores, requentando o que já havia, antes, servido de instrumento de alienação do povo despolitizado, uma ação permanente executada com maestria.
Além de pânico, confusão e novas (velhas) ações da mídia e dos integrantes da “Sala de Justiça de Curitiba’, uma outra observação pode ser extraída dos inúmeros áudios e vídeos que pipocam sobretudo no ambiente da Internet, mormente no Facebook.
Trata-se da exposição clara de um elemento que pouco foi mostrado ou analisado nessa peleja fantasmática em que os lados antípodas se digladiaram, qual seja, a indicação de quanto a sociedade brasileira é marcada pela tentativa de uma classe dominante se sobrepor à dominada, mesmo que nesta esteja incluída a classe média.
Todos os delatores, até agora, fazem parte de uma casta cujo principal objetivo é exercer o poder de fato e de direito no ambiente sócio-político e principalmente o econômico do Brasil.
Apenas como exemplo cito a declaração de 13 de dezembro de 2016 do coronel-patriarca Emilio Odebrecht e todas as declarações de seu filho, Marcelo. O enunciado delas indica como ambos colocam em seus discursos uma naturalidade absurda de agir como agiram – há trinta anos, dirá o ‘capo’ fundador. Ora, seus discursos denotam como planejaram, organizaram e agiram dentro de uma perspectiva de poder comprar as decisões que lhes possibilitariam, simplesmente, mover os cordões de marionetes mediante trocas monetárias, usando o dinheiro do povo brasileiro.
Quando assinalo que a Lava Jato subestimou os potentados nas suas condenações, miro exatamente nessa perspectiva.
Observemos que Marcelo está se colocando, nas suas declarações de ‘colaborador’, na posição de vítima. Quando se declara como ‘o bobo da corte’ ele se projeta como um rei que perdeu o jogo na corte perversa que domina a sociedade brasileira.
A potência do poder do aniquilamento de qualquer tentativa de resistência ao modelo montado por Marcelo/Emilio chegou a tal ponto que os outros ‘players’ do jogo, as outras mega empresas que teoricamente seriam suas competidoras, não puderam lhe fazer frente, apenas imitaram ou no mais das vezes, faziam parte do cartel liderado pela família Odebrecht.
Lembro aqui que a partir de 2002 o poder central da empresa passa das mãos do “velho” Emilio para o ‘moderno’ Marcelo. Muda-se o paradigma de acionar não mais as roldanas e manivelas, para um controle eletrônico, ou seja, exponenciam-se as novas engrenagens da manipulação. Como se as tratativas ultrapassassem somente a área do Executivo, atingindo também o Legislativo, e até mesmo o Judiciário. É evidente que na lista de Fachin não aparece nenhum membro do Judiciário por absoluto corporativismo, como vem insistentemente denunciando a ex-corregedora do CNJ, Eliana Calmon.
O juiz Sérgio Moro vai se defrontar com um rival à altura de sua perversidade. Ambos, Moro e Marcelo, têm a mesma característica narcísica. O primeiro, com o objetivo de destruir o sistema político brasileiro, com a obsessão de liquidar o único político que lhe faz frente, Lula. O segundo, ao perder a batalha, ao ser abortado da condição de imperador dessa corte submissa e corrupta, vinga-se espalhando, como ator, o pânico nos mesmos cortesãos agora nas suas mãos, exatamente porque perdeu a modalidade que ele escolhera para reinar

Imprensa e confiabilidade

A cada dia nossa ‘grande imprensa” aquela de propriedade das ‘sei famigli’ que sempre está à frente das ações de destruição do Estado Democrático de Direito em função de seus interesses ligados ao capital internacional e às piores camadas da política brasileira, também se mostra fraquíssima em analisar com profundidade fatos de caráter técnico, que noticia com estardalhaço.
Foi assim no episódio da ‘maior operação da historia da PF’ brasileira, quando deixou de analisar(grifei) algumas das afirmações do delegado Narciso, ops, Maurício em relação aos telefonemas que, segundo o delegado, demonstravam técnicas que contrariavam os protocolos de assepsia/qualidade na fabricação de embutidos ou até nas carnes ‘in natura’, caracterizando a tão decantada ‘carne podre’.

Na área das informações sobre pesquisas em qualquer setor, da política até os sofisticados métodos das ciências duras, as informações de nossa imprensa são de doer. Vão de interpretações totalmente fora do contexto até às contrárias ao que os pesquisadores chegaram em resultados nas suas bancadas.
Notícias sobre pesquisas eleitorais e informações sobre economia chegam a ser irresponsáveis, tal a completa falta de análises sobre as metodologias e técnicas utilizadas nelas, que poderiam ser buscadas nas universidades, fora das consultorias cujos interesses nem sempre são os da busca da confiabilidade requeridas.

Aliás, o único setor em que a ‘grande imprensa’ demonstra grande eficiência é mesmo no ‘marketing’ – um sinal negativo – das manchetes que costumam usar, sempre exageradas e com o único objetivo de atrair a atenção dos leitores/espectadores, salvando-se aí o rádio, mais comedido e cuidadoso.
Infelizmente os profissionais que hoje fazem parte das redações – sejam elas de qualquer setor – seguem o padrão dessa mesma falta de qualidade, com as exceções de sempre para confirmar a regra. O agravante aqui é a subserviência aos ditames dos seus patrões.

 

O que é violência?

O termo violência é, hoje, sobejamente aplicado para referenciar uma quantidade enorme de agentes ou ações. Ele pode expressar desde a mais forte ação à mais sutil das experiências – como queria Foucault  chamando-nos a pensar sobre a “docilização dos corpos” – à submissão e ao abuso físico, psíquico ou social. De uma outra maneira, ele poderia ser aplicado a indicar um sintoma,nesse caso, de que?

Haveria uma violência legítima que no mundo do simbólico e da Cultura sustentaria ações coletivas ou individuais chegariam à justificativa ética de sua utilização? Ao tratarmos da violência, temos sempre a ideia de uma força imediata  de onde emerge a existência de uma força vital, uma potência não raramente incontrolável, o que a aproxima, indubitavelmente, da noção da pulsão freudiana.É comum dizer-se hoje que a sociedade pós-moderna é atravessada pela cultura do narcisismo ou ela é categorizada como sociedade do espetáculo . Em ambas, o sujeito buscaria uma estetização de si mesmo, transformando sua existência em uma performance, construindo um modelo de subjetividade onde o narcisismo atravessa inteiramente tanto seus indivíduos quanto as estruturas da sociedade. Até que ponto tal narcisismo é importante gerador de violência?

O encontro impossível entre o desejo e a promessa, o paradoxo e a tragicidade na conjunção do sujeito freudiano com o poder, as múltiplas exigências das sociedades complexas exigindo várias “weltanschauungs”, trazem cada vez para mais perto de nós a obra de Freud, porque ela abrange vasto campo onde as subjetivações se apresentam como necessárias. Onde quer que seja importante elucidar algo em relação à agressividade, à força e poder, à dor e ao sofrimento, ainda hoje, e cada dia mais, Freud é insistentemente chamado.

Observações sobre mutações contemporâneas

A guinada à direita em todo o mundo ocidental tem demonstrado que o sistema de representação, até então utilizado, começou a falir quando a globalização tornou-se um instrumento do Império contemporâneo, os EEUU com seus aliados. O decantado ‘sistema de pesos e contrapesos’ retirado do Espírito das Leis, de Montesquieu foi ferido de morte a partir da hegemonia do capital financeiro – como Marx havia previsto – não tem como ficar de pé com a falência dos Estados Nacionais, desde que seus tentáculos da ‘financeirização’ aniquilam qualquer tentativa de autonomia das Nações. O poder midiático, até então difuso, passa a ter uma importância no imaginário das pessoas, que o iguala, ou supera, a fática, do Legislativo, do Executivo e do Judiciário do até então “Estado Democrático de Direito”, hoje um mero desenho formal. Há de se notar que o Poder da Mídia é exercido defendendo interesses da área privada, já que os proprietários dos seus instrumentos de atuação – jornais, rádios, TV -pertencem, na sua quase totalidade, a grupos econômicos da elite, nas sociedades onde atuam.

Com tal cenário há um enorme aumento da manipulação produzido pelos meios de comunicação, os maiores formadores de opinião na sociedade civil. O consequente passo seguinte é a eleição de parlamentares cujos interesses pessoais se fundem aos das elites visando atingir objetivos que favoreçam às grandes corporações. É o caso, por exemplo, das privatizações e dos cortes orçamentários que sustentam os ganhos sociais da população de baixa renda. Na ausência do Estado, pelo corte orçamentário, caberá à iniciativa privada suprir tais necessidades. Como num concerto afinado, os vários setores político-institucionais comandados pela mídia se unem para quebrar a confiança do povo no papel do Estado.

A subjetivação subversiva.

A subjetivação subversiva (entrevista com Felix Guattari)

Para o pensador francês, coisas como a crise no Oriente Médio, o racismo, a violência nas grandes cidades e a droga estão relacionadas com o achatamento das subjetividades, que podem subverter a ordem opressora através de movimentos conservadores, desafiando a lógica progressista.

Impossível definir Félix Guattari como pensador sem levar em conta a sua dimensão militante, já que para ele essas coisas não se separam: a reflexão e suas consequências práticas, o individual e o social, o público e o privado. Por isso mesmo, Guattari foi se transformando nessa espécie riquíssima (e hoje rara) de ser humano que vai sendo expulso, ou se auto-expulsando, de todas as instituições, de todos os lugares onde pensamento e ação se paralisam, comprometidos com a manutenção de posições de poder: as sociedades de psicanálise na França, os movimentos e partidos políticos, os modismos intelectuais que tendem a banalizar na forma de grandes conceitos universais a multiplicidade das singularidades humanas. Continuar lendo

O “mais um” dos poderes da República

Se pudermos tirar uma grande lição do episódio de 17/04/2016, quando da votação sobre a admissibilidade do ‘impeachment’ da presidenta Dilma pela Câmara dos Deputados do Congresso Nacional, ela seria a demonstração mais cabal da falência do nosso sistema representativo nos moldes da chamada democracia ocidental defendido pelos iluministas  cujo principal artífice foi Montesquieu.

O autor do “Espírito das leis’ dá o nome de República às sociedades encontradas, sobretudo, no mundo grego da Antiguidade e das Cidades Estados. Espaços geográficos diminutos supunham uma igualdade política e igualdade econômica, com os cidadãos gozando das mesmas expectativas e prazeres. As leis deveriam possuir força própria. A República, a Monarquia e os Governos Despóticos seriam os paradigmas de suas considerações quanto à forma de governo. Na República,  plena de igualdades, até mesmo os magistrados não seriam diferentes dos cidadãos no uso das prerrogativas e deveriam ter mandatos temporários.

No “Espírito das Leis” – Livro XI, encontra-se a teoria da separação dos poderes – Executivo, Legislativo e Judiciário, inspirada na viagem empreendida por Montesquieu à Inglaterra, feita em 1729. Ele admitia que ali tivesse encontrado um regime cujo objetivo principal seria a liberdade. Integrada à Constituição Americana e servindo de modelo para a Declaração Universal de Direitos Humanos, a partir daí a famosa separação de poderes passou a ser um princípio político de praticamente todos os governos que sofreram a influência da Revolução Francesa.

Não cabe aqui uma análise mais profunda a ser desenvolvida em outro momento mas o fato é que Montesquieu, um nobre e rico cidadão, não recebia bem a ideia de que o povo possuísse o poder, daí sua escolha da necessidade de uma Câmera Alta e uma Câmera Baixa, aquela, constituída por nobres. Montesquieu não era, pois, um arauto da burguesia triunfante na Revolução Francesa, sendo um conservador tanto por temperamento como por opção política, defensor de sua classe social, a nobreza.  Afinal, as divisões classificatórias que descreveu – República, Monarquia e Governo Despótico, não se deram, certamente, pela divisão do trabalho ou algo que definisse o vínculo social que as distinguisse, mas, sim, unicamente pela posição do soberano.

O que desejo dizer, após essa minúscula introdução, é que o sistema de ‘pesos e contrapesos’ tão decantado pelos estudiosos e defensores da democracia de então, consubstanciado no três poderes mencionados não levou, nem poderia levar em conta a existência de outro poder. A incipiente imprensa de então, aliada dos revolucionários, tanto franceses quanto americanos nas suas respectivas guerras/ revoluções pela autonomia política ou pela derrubada da monarquia absolutista, acabou por ser apenas cúmplice retórica dos burgueses que lutaram para as derrocadas das monarquias, tanto na autonomia dos Estados Unidos quanto na queda da monarquia, na França.

De qual imprensa falamos? Das folhas escritas para fins comerciais e comunicados corporativos  ou ainda onde houvesse alguma universidade. Nada que fosse sequer semelhante aos chamados modernos sistemas de comunicação. Foi somente  partir de fins do séc. XVIII e início do séc. XIX que os políticos se deram conta do poder de influência da matéria escrita, já como jornal. Neste mesmo século os grupos econômicos e políticos se dão conta de como seria lucrativo a formação de empresas – as agências de noticias – surgindo os conglomerados para publicação dos primeiros jornais que efetivamente começaram a influir na opinião pública. A invenção do telégrafo, por Samuel Morse , em 1844, permitiu que notícias circulassem à distância. Ainda no séc. XIX, a instalação dos cabos submarinos aumentou sobremaneira a difusão de noticias.

Tudo isso, aliado às novas técnicas de impressão, como as rotativas, à utilização das fotografias, às transmissões por emissoras de rádio por volta de 1920, permitem aos grupos de proprietários adquirirem um poder extraordinário junto à população que lia e escutava. A partir das décadas de 40/50, com a introdução da televisão, começou-se também a ver tudo o que era escolhido por profissionais que se formaram para criar e divulgar notícias e comentários aos já denominados meios de comunicação de massa, cujos proprietários eram da iniciativa privada.

Pois tudo isso se avolumou de tal maneira que tais instrumentos – as mídias – tornaram-se concorrentes dos poderes constituídos pensados por Montesquieu.

Com efeito, os grupos formados com interesses os mais variados passaram a concorrer de fato com a produção Legislativa, com as ações do Executivo e com as decisões Judiciárias. Tornaram-se, efetiva e realmente, um quarto poder não metafórico como alguns querem fazer crer, mas de fato e de direito, já que conseguiram implantar a noção de que eles representavam a opinião da sociedade.

O mais impressionante nessa situação é que o poder das mídias supera hoje a capacidade de influir dos outros três poderes originais em decisões políticas das mais importantes, muitas vezes afetando milhares ou milhões de pessoas. Foi necessário criar um freio de resistência a esse poder avassalador, de tal maneira que as nações mais amadurecidas politicamente votaram leis que regulam sua atuação, sem prejuízo de emissão de opiniões, inclusive político-ideológicas,  mas delimitando regras no âmbito econômico, como por exemplo, restringindo a formação de cartéis e outros acordos entre seus  proprietários,  todos da iniciativa privada, com raríssimas exceções.

Estamos, pois, diante de uma nova realidade, bem diferente daquela do século das Luzes, quando a minúscula imprensa não servia aos interesses de grupos econômicos poderosos. Montesquieu ou qualquer dos filósofos que deram suporte teórico a essa formidável ‘invenção’ chamada Democracia jamais poderiam supor que um quarto poder teria que ser inserido às suas concepções de um regime democrático.

Finalmente, gostaria de chamar atenção para o fato de que o poder midiático é o único dos quatro que influi decisiva e rapidamente sobre as chamadas formas de subjetivação das pessoas,  porque  possuindo técnicas amparadas tanto nas concepções psicológicas ou nas ferramentas advindas da neurociência, se aproveitam disso para trazer adesões ou contraposições aos seus editoriais ou notícias. Não é preciso lembrar sobre as técnicas de convencimento empregadas pelo nazismo, efetuadas sobre a supervisão do ministro da propaganda de Hitler, Joseph Goebbels.

Na crise da democracia representativa que ora atravessamos deve ser discutido seriamente sobre como admitir esse quarto poder, a mídia, junto aos três já consagrados: Legislativo, Executivo e Judiciário.

Por Flávio Bertelli.